VISANDO A FERENCZI
"Visando uma arqueologia da Psicanálise, é impossível não notar a especificidade desse pequeno país, da sua relação com a Psicanálise. Budapeste-Viena, ora tão longe, ora tão perto ! Aumenta a distância em torno dos movimentos de autonomia nacional na Hungria no momento de aderir à modernidade.
A Psicanálise entrou na Hungria com os movimentos revolucionários, antiimperialistas e, paradoxalmente, fortemente nacionalistas. Isto tornou-a imediatamente interdisciplinar. Associou-se facilmente a literatos, antropólogos, políticos, enfim, a todos aqueles que estavam envolvidos nos movimentos de formação da nacionalidade húngara.
Lutava-se para impor a língua húngara, até então restrita a situações informais e artísticas. Pesquisava-se a origem dos magiares e da sua mitologia, que no caso, diferentemente do que aconteceu na Alemanha, onde também se pesquisavam as raízes da mitologia germânica, era um retorno às raízes não imperiais, isto é, fora do Império Austro-húngaro. Era um retorno à Hungria não romana, não-turca, não-germânica. Na Alemanha, as pesquisas pan-germânicas eram um reforço à identificação alemã, enquanto na Hungria elas participavam da libertação dos húngaros contra a opressão dos Habsburgos.
Diante disso está claro que a Psicanálise nascida em Viena não poderia ser aceita em Budapeste, pois nesse momento Viena era a capital imperial da qual nós queríamos nos separar. A Psicanálise vai entrar na Hungria então pelas mãos de um cidadão chamado Fülop Stein, um médico húngaro especializado em alcoolismo. Ele passara um período em Zurich com Bleuler, conhecido por seu terror antialcoólico.
Fülop Stein conhece Jung em Zurich, e durante um simpósio de antialcoolismo realizado em 1907, fala de Jung e da Psicanálise para Ferenczi. Nessa época, Ferenczi era um neurologista aberto às formas alternativas em geral e já havia se envolvido com o espiritismo e com certas seitas orientais, visando sempre a diminuição da dor psíquica. Já tinha ouvido falar de Freud, mas as teorias de Freud, até aquele momento, não lhe despertaram o interesse. Em 1908, Jung apresenta Ferenczi à Freud, junto com Fülop Stein.
... E tudo começou ali
Ferenczi converteu-se imediatamente e logo começou o trabalho de convencimento dos seus colegas, no que foi bem sucedido. " (...)
"Ela não se instalou na Hungria apenas como uma prática e como teoria. A Psicanálise se instalou inteira na cultura, ela se fez cultura.".
(...) "Quando a Psicanálise encontra essa língua húngara em tudo aquilo que se fala ou lê, no sentido da comunicação dos afetos, a Psicanálise e a língua húngara se encaixam perfeitamente. Tudo aquilo que se fala no consultório é a língua que o húngaro tem aperfeiçoado: a língua materna, que se manteve no lar até hoje. Só no fim do século passado e no começo deste é que se começou a usar o húngaro fora do lar, do lazer, das artes.
Na situação analítica encontramos duas situações. A língua do analisando é a língua materna, a língua dos afetos, da interpretação através da qual pretendemos inserir o nosso analisando numa certa altura, quando a precisão começa a ser necessária. Encontramos uma certa sincronia introjetada nessa nova ciência do afeto, ciência do cotidiano, do carnal, e na oficialização da língua materna em língua oficial do Estado".
Tudo isso ocorreu sob os olhares do Dr. Ferenczi. Ele era um húngaro de primeira geração; é preciso lembrar que os judeus tiveram duas grandes entradas na Hungria: uma com os turcos -os judeus sefardins da invasão turca-, e a outra com a integração do Império austro-húngaro -os judeus asquenazins- , que vinham da Polônia e de todas as regiões do Leste europeu, numa grande liberdade de locomoção. Ferenczi e Freud tinham vindo do Leste.
Tanto Freud como Ferenczi eram de primeira geração, só que Ferenczi, por ter sido criado na Hungria, então uma província de Viena, e talvez por um traço de sua personalidade, foi uma pessoa muito menos formal, tendo se envolvido mais com a cultura local e com os movimentos sociais.
Mas não foi só nisso que eles diferiram. Ferenczi como bom médico de família da pequena e cosmopolita Budapeste, sempre foi muito envolvido pela responsabilidade da cura. Freud, na capital do Império, teve a oportunidade de ser ainda muito mais cosmopolita e isto incidiu em suas teorias.
A Budapeste do começo do século era uma cidade pequena, a burguesia praticamente se conhecia e o cliente quase nunca era um desconhecido. Dessa forma o compromisso com a cura era parte da vida do médico, mesmo que fosse um psicanalista, e não um clínico geral. Numa cidade pequena, na verdade, todos se conhecem e a responsabilidade de curar aumenta. Quer dizer , um parente de um cliente está ali e nós o conhecemos.
(...) Além de serem pessoas muito diferentes, recebiam também a influência da organização das duas cidades. Freud se caracterizava pela exigência do pensamento científico e por isso a visão do sofrimento era uma coisa natural, ou seja, admitia-se que o mal-estar existe.
Já Ferenczi era o otimista, o esperançoso, não achava o sofrimento natural e queria curar o mal-estar. Ferenczi queria curar, Freud privilegiava a pesquisa. Isto indica uma diferença ideológica que vai influir no que eles realizam e como realizam.
As relações Freud-Ferenczi ou Viena-Budapeste eram simétricas. Esta simetria não se dava apenas na relação dominador-dominado, mas também na posição de dominado, que, malgrado a sua situação, continuava a realizar o seu destino."
A seguir, trecho extraído do artigo "Ferenczi: Cultura e História" de Anna Verônica Mautner, in "Ferenczi: História, Teoria, Técnica" (Chaim Katz, org.) São Paulo, Ed. 34, 1996.
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