Sandor Ferenczi
· Quienes somos · Contacto · Libro de Visitas · Sucripción Newsleter ·
-
Indepsi
Su Vida
Biografia
Línea de Vida
Galería Fotografías
Su relación con....
Epistolario
Literatura
Bibliografia
Artículos
Revisiones
Publicaciones
Fichas Ferenczianas
Psicología Bioanalítica
Tópicas Ferenczianas
Glosario Ferencziano
Escritos Bioanalíticos
Notas sobre Bioanálisis
Investigación Bibliográfica
Material de Investigación
Citas Ferenczianas
Citando a Ferenczi
Material Gráfico
Denostaciones
Vinculaciones Ferenczianas
Ferenczi/Freud
Pares y Discípulos
Psicoanalistas Afines
Vinculos
Estudiosos de Ferenczi
Ferenczi en la Red
Noticias
Busqueda

Estadisticas

Miembros de la
Sándor Ferenczi Society
Budapest, Hungria

Sándor Ferenczi Institute Nueva York, U.S.A.

 

Artículos sobre Ferenczi:

 

APROPRIAÇÕES ATUAIS DE FERENCZI

 

Camila Peixoto Farias.

 

Este trabalho constitui-se em um desdobramento das pesquisas realizadas no Laboratório de Epistemologia e Clínica Psicanalítica (LABEC) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Em nossas pesquisas percebemos que o pensamento ferencziano sobre o trauma vem ganhando destaque, principalmente no que se refere ao estudo das patologias contemporâneas como as adicções, toxicomanias, depressão, transtornos alimentares, síndrome do pânico, etc.

No presente trabalho discutiremos o trauma em Ferenczi a partir de dois textos, Thalassa, Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade (1914; 1993) e Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança (1933;1992). Com esse percurso buscaremos delinear as possíveis bases ferenczianas do traumático na tentativa de propor uma interlocução das mesmas com autores contemporâneos.

Na obra ferencziana, a partir do texto Thalassa, Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade (1914;1993), encontramos a teoria de origem lamarckiana das catástrofes, segundo a qual os seres vivos não têm uma tendência natural à evolução, sendo levados a mudar impelidos por modificações violentas ocorridas no seu meio-ambiente, às quais têm que responder transformando seu corpo e seu modo de viver.

Nesse texto, Ferenczi propõe uma relação íntima entre filogênese e ontogênese; a vida intra-uterina, o nascimento, a relação sexual e todas as etapas do desenvolvimento estariam reeditando as catástrofes da filogênese e, como conseqüência, as modificações que as mesmas provocaram no corpo e no comportamento da espécie ao longo do processo evolutivo. Pinheiro (1995; 69) aponta que “Ferenczi se refere aos traumas como sendo, na maior parte das vezes, estruturantes e remete-os a uma cadeia filogenética pré-inscrita, na qual, além de inevitáveis, são necessários.”.

Porém, destaca Figueiredo (1999; 175) que “...a vitória da espécie na escala filogenética não garante a vitória de cada indivíduo na escala ontogenética. Da mesma forma, poderíamos dizer que a universalidade da experiência filogenética não desqualifica ou minimiza o peso da singularidade de cada história individual e das variações entre indivíduos.” Figueiredo (1999;179) ainda acrescenta que “as repetições dão a cada indivíduo a possibilidade de viver por sua conta e risco, na mais absoluta singularidade, os dramas universais inscritos na memória da espécie”.

As catástrofes, ao romperem com um ritmo já instalado, produzem uma desintegração parcial das pulsões, uma clivagem. Como essa desintegração não é suficiente para causar a morte, dela surge um novo estado de vida, clivado. Como propõe Figueiredo (1999;160) “Há algo que se despedaça, que se rompe, que se desintegra, que se despede de si como condição para a retomada daquela unidade original (intra-uterina)”.

O nascimento caracterizar-se-ia como a catástrofe que rompe com a unidade (mãe-bebê) de forma inexorável, produzindo no psiquismo um efeito de excesso, um efeito traumático que deixa a estranheza com o mundo externo como marca primordial, criando um espaço vazio que buscará constantemente um preenchimento, pondo o aparelho psíquico em funcionamento.

Ferenczi indica essa clivagem inicial, provocada pelo nascimento, como estruturante do psiquismo. A partir dessa clivagem inicial, o sujeito, com a ajuda de um adulto, vai ser introduzido no universo humano. Como acrescenta Knobloch (1998;49) “Essa experiência - considerada catastrófica, por implicar uma desorganização e uma reorganização - será também estruturante, na medida em que permite ao sujeito estabelecer a relação com o outro e franqueia, portanto, sua entrada na cultura da linguagem”.

Após essa catástrofe inicial, Ferenczi aponta para o poder quase absoluto que os adultos (o meio ambiente) adquirem na etapa de dependência do recém-nascido. A palavra, a ação, o corpo dos adultos se impõem ao bebê com uma violência como as catástrofes da filogênese, em que as forças da natureza se impunham aos seres vivos indiferentes às suas condições para lidar com elas.

A linguagem do adulto, quando não é excessiva, exerce sobre a criança uma pressão traumática que é estruturante, uma vez que faz uma exigência de trabalho ao psiquismo que levará à produção de representações. Nesse sentido, Reis (1997) destaca que “ É o adulto, com sua língua prenhe de sentidos múltiplos e de ambigüidades, já inscrita na ordem do recalque, que vai exercer a violência interpretativa necessária para capturar este universo em dispersão e tornálo um universo humano.”

Pinheiro (1995;74) aponta que “A criança só pode ter uma palavra própria quando intermediada pelo adulto. Num primeiro tempo ela empresta as palavras ao adulto e simultaneamente é a este que ela dirigirá sua palavra para obter uma confirmação. Este vaivém é condição imprescindível para que a criança conquiste sua própria palavra. É, portanto, por intermédio do adulto (suporte da introjeção) que a fala da criança pode ou não ter sua existência autorizada.”.

Contudo toda criança terá de se deparar com o problema da confusão entre sua língua (da ternura) e a língua dos adultos (da paixão). É importante ressaltar que a ternura deve ser entendida como anterior à sexualidade sob o primado da genitalidade. A criança deverá achar uma resposta para a falta de sintonia entre o mundo adulto e o mundo infantil. Isso é possível através da mediação simbólica, do ingresso no mundo das simbolizações possibilitado pelos adultos.

Ferenczi propõem dois modos através dos quais o mundo externo pode se impor à criança: pela sedução, de maneira terna, suave e gradual ou pela intimidação, maneira violenta e cristalizadora. A sedução levaria a criança a ir em busca de significações para suas vivências, a participar de um mundo de simbolizações. Já a intimidação roubaria a fala da criança, cristalizaria a palavra, impedindo-a de ser pronunciada e, assim, de produzir novas representações, ficando à parte do universo simbólico, clivada. Na intimidação a criança estaria exposta, de maneira violenta, às paixões (sexuais) do adulto, a uma linguagem excessiva.

Ferenczi demonstra a intimidação através do desmentido. No desmentido, a história contada pela criança (um fato real) é relegada pelo adulto ao plano da mentira, o adulto trata o acontecimento como uma ficção, não como um acontecimento real. Com isso, o fato fica sem compreensão para criança. A palavra própria dela, ao invés de mediada, fica interditada pelo adulto.

O desmentido tornaria impossível a introjeção. Ressalta Knoblock (1998; 51) que “...o desmentido não só não confirma aquilo que aconteceu como também coloca em dúvida a própria existência daquele que o experienciou.”

Para Pinheiro (1995; 68/69) “A ausência de certos elementos ou, mais precisamente, a ausência do desmentido tornaria o trauma estruturante. Em outras palavras, se todos os elementos e ingredientes são absolutamente necessários à existência de um trauma ferencziano, é somente o último, o desmentido, que o fará ser desestruturante. O trauma seria, portanto, uma seqüência de ingredientes e de eventos que, acrescidos do desmentido, adquiririam a condição de desestruturante.”.

Nesse caso a criança é atingida por um excesso para o qual não encontra o amparo simbólico do adulto. Pinheiro (1995; 68) diz que “O adulto, por sua vez, não reconhece a linguagem da ternura da criança, e a toma como um igual, ou seja, toma a linguagem da ternura como uma sedução da ordem genital.”.

Nessa situação, o adulto captura a fala da criança, captura a possibilidade de ambigüidade das palavras, restando à criança essa palavra de sentido único, cristalizada e radicalmente proibida de ser pronunciada, proibida de integrar seu mundo simbólico. Portanto, o desmentido impede a introjeção, impedindo a inscrição psíquica. Knobloch (1998; 48) salienta que “É por meio da ‘introjeção’ que o psiquismo poderia assenhorar-se do sentido dado pelo outro”.

No desmentido, o evento traumático não é mediado pela linguagem do outro, o adulto falha em cumprir seu papel de mediador da entrada da criança no registro da vida humana; não sendo possível para a criança construir um sistema de significações e um sistema de memória inconsciente para tal evento, o que talvez nem mesmo o adulto tenha conseguido.

Diante disso, a criança incorpora o sentimento de culpa do agressor, tornando-se clivada, carrega a culpa e a inocência ao mesmo tempo. A criança incorpora o sentimento de culpa do agressor visando não abrir mão do objeto da introjeção, uma vez que nesse momento perder o objeto causaria o aniquilamento, o despedaçamento psíquico. Como destaca Pinheiro (1995; 82) “O que a criança entrevê é o risco da morte física e psíquica. Resta então garantir a permanência do objeto a qualquer preço. A criança encontra a solução de transplantar o sentimento de culpa do agressor para si própria, suportar a injustiça do desmentido e com isso recuperar o estado de ternura anterior ao trauma.”.

A invasão do ego infantil pelo sentimento de culpa do agressor cinde o mesmo, separa a paixão da ternura, visando recuperar o estado anterior (de ternura) em pelo menos uma parte do ego. “A paixão toma a palavra e separa-se da ternura, sem que qualquer contato entre elas seja possível, como se uma desconhecesse a existência da outra. Ambas se pretendem representantes legítimas do ego infantil. Assim, o agressor nos textos de Ferenczi é o posseiro do ego, ignorando seu verdadeiro dono. A clivagem, nesse caso, consiste em uma separação em duas partes que não mantêm contato entre si.” Pinheiro (1995; 83/84).

Podemos pensar que acontecimentos traumáticos que não podem ser dotados de sentido no psiquismo, não são recalcados, produzindo clivagens psíquicas que se tornam presentes como sensações corporais. Essas sensações corporais passam a atuar numa repetição sempre atual que se utiliza do sulco deixado pelo rastro da própria excitação, para construir seus sintomas.

Nesse sentido, Reis (2004) destaca que “O sentir desprovido de sentido não pode se expressar a não ser por alterações orgânicas, sensações, gestos e atos repetitivos. Por outro lado, o puro saber não tem colorido nem sentido afetivo permanecendo numa esfera de abstração e de esvaziamento do eu.”.

A clivagem psíquica pode ser aproximada da autotomia, termo encontrado em Thalassa (1924;1993) que designa o processo pelo qual algo é deixado morrer para garantir a sobrevivência e o bem-estar do indivíduo, ou seja, uma parte do organismo morre, para que o restante sobreviva quando se dá um trauma, uma catástrofe. Knobloch (1998;71) enfatiza que “Ferenczi reconhece a vantagem que a clivagem oferece ao sujeito: ‘economiza o conflito subjetivo’; é exatamente o abandono de si que pode criar circunstâncias mais favoráveis para suportar a violência.”.

Contudo, percebemos que as cisões são a única defesa possível ao ego contra o aniquilamento que o trauma pode causar. Nas cisões o ego se desestrutura, mas evita seu aniquilamento.

Costa (1988; 50) aponta que “Concretamente, para ele (Ferenczi) a violência sofrida pela criança só se tornava traumática quando era posteriormente desmentida em sua facticidade por um outro adulto. Em linguagem corrente, importa a versão e não o fato. É a linguagem, interpretação, o enunciado do adulto significativo que traumatiza. Obviamente, não pensamos subestimar o valor das significações “a posteriori”, na teoria psicanalítica. Mas os significados só são vividos ou percebidos como traumáticos quando e porque falharam na designação de uma via que desse vazão parcialmente à satisfação absoluta, esta sim, traumática em si.”.

Com isso, Costa destaca o excesso irrepresentável vindo do outro como elemento fundamental no trauma, e completa: “A paixão é um derivado da aspiração à satisfação absoluta. O outro parental que ama ou pune conforme as leis edípicas não pode ser fonte de trauma. Caso contrário todos os indivíduos seriam patologicamente traumatizantes. O trauma que Ferenczi via na paixão era o efeito psíquico da onipotência incondicional, livre de rédeas simbólicas e não do enquadramento pulsional nas normas edípicas.” (1988;49) Ele prossegue “O adulto ferencziano é literalmente porta-dor da paixão e não porta-voz de algo que fale ou se deixa dizer. Paixão é dor e como toda dor é muda. Em função disto, a criança não tem como representar a conduta apaixonada e no lugar da representação surge a alucinação negativa.” (1988; 50).

Contudo, parece-nos que o evento traumático seja a repetição pelo adulto de um trauma na tentativa de liquidá-lo. Podemos pensar então no evento traumático como traumático para ambos, criança e adulto, pois para ambos o acontecimento escaparia das leis simbólicas.

Nessa direção, Reis (2004) salienta que “O traumático refere-se ao exógeno, àquilo que vindo de fora atinge o sujeito de forma inesperada e desarma suas defesas. Do ponto de vista do psiquismo, o fora é a própria experiência da dor, enquanto o que não pode ser recalcado, e em relação ao qual só é possível a defesa pela clivagem narcísica. O corpo, como lugar da experiência sensível, sendo atravessado por uma vivência excessiva que não encontra eco no mundo psíquico, atua como elemento exógeno e traumático para o eu.”.

Percebemos que, na atualidade, ganha destaque se pensar o trauma sob dois diferentes aspectos: de um lado, o desmentido; de outro, o excesso irrepresentável vindo do outro. Questionamos se um aspecto invalida necessariamente o outro ou se talvez o excesso somente tem efeito traumático se ele não for “amenizado” pelo adulto, assumindo então o caráter de violência.

 

Bibliografia

COSTA, J. F. – Ferenczi e a Clínica, in Cadernos de Psicanálise do Circulo Psicanalítico do Rio de Janeiro, Ano X, nº 6, p. 42-52, RJ,1998.

FERENCZI, S. – (1924) Thalassa, Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade, in Psicanálise III, SP, Ed. Martins Fontes, 1993.

______________(1933) Confusão de Línguas entre os adultos e a criança, in Psicanálise IV, SP, Ed. Martins Fontes, 1992.

FIGUEIREDO, L. C. – Palavras Cruzadas entre Freud e Ferenczi, SP, Ed. Escuta, 1999.

KAHL, M.L. F. – Por que Ferenczi Hoje?, in Revista Natureza Humana, SP, 2006, no Prelo.

KAHL, M.L. F. (coordenadora) – Sándor Ferenczi, “Os Casos Difíceis” e a Clínica Psicanalítica Hoje. Projeto de pesquisa financiado pelo PIBIC-Cnpq e Fundo de Incentivo à Pesquisa –FIPE- UFSM- Universidade Federal de Santa Maria- RS, 2006.

KNOBLOCH, F. – O tempo do Traumático, SP, Educ-Fapesp, 1998.

PINHEIRO, T. – Ferenczi: Do Grito à Palavra, RJ, Ed. Jorge Zahar e Ed. UFRJ, 1995.

PINHEIRO, T. – Ferenczi: Do Grito à Palavra, RJ, Ed. Jorge Zahar e Ed. UFRJ, 1995.

REIS, E. S.– Ferenczi um Analista Atual? POA, 1997. Disponível em http://www.estadosgerais.org . Acesso em 18 de maio de 2006.

REIS, E. S. – Corpo e memória Traumática, trabalho apresentado no VII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental e I Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental, RJ, 2004. Disponível em http://www.psicopatologiafundamental.org .Acesso em 15 de abril 2006.

 

Camila Peixoto Farias.

e-mail: camilapsi.pf@mail.ufsm.br

 

http://www.fundamentalpsychopathology.org/anais2006/4.26.3.2.htm

 

 

Inicio          Indice                  

          

          

          

 
Buscar en toda la red

(c)Sandor Ferenczi Homepage es propiedad del Instituto de Desarrollo Psicológico Indepsi 1998-2010